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- Alô?
Vocês têm palestras para casos de absenteísmo?
- Pode passar
maiores informações? Trabalhamos sob demanda dos
clientes...
- Ótimo! Vou
querer uma palestra. Rápida. No máximo 1 hora.
Vapt-vupt.
- Esta é uma
questão que deve ser bem pensada. Precisamos ter
cuidado na avaliação...
- Olha! Vamos
ser mais assertivos? Quanto custa? Tem desconto? O
coffee break e hotel estão no meu centro
de
custo. Será sexta-feira à noite. Todo mundo convocado.
Sem extras. Manda hoje?
- Veja bem. O
caso não pode ser tratado desta maneira...
- Concordo.
Precisa ter efeito imediato. Tratamento de choque. O
diretor pediu para resolver o problema das
faltas e
atrasos e disse para chamar um consultor. Estou cotando
com fulano e beltrano. Você sabe, né? Três
orçamentos,
o menor leva e sem essa de “valor agregado”.
- Mas...
Precisamos analisar a situação: Como está o clima? As
ferramentas? Os processos? Não é só chegar lá e
dizer a
todos: Parem de se desmotivar. Cheguem no horário ou
então créu...
- Ai, ai, ai! Já
vi que liguei para o lugar errado, não é? Quanta
dificuldade!
- Ok. Ok. Como
está a situação?
- Prá mim são
um bando de encostados. Vivem com atestado na mão.
Cheios de desculpas: metrô, greve, sistema,
chefia,
família. Quem manda ter uma penca de filhos? Ninguém
está comprometido. Falta vergonha na cara.
Reclamam
de tudo, só pensam em feriado. Um inferno. Entendeu?
- Acho que sim.
Desde quando está acontecendo?
- Faz uns seis
meses. Logo depois que vim para cá. Houve umas mudanças
e acabamos com a farra do pessoal.
Agora
estamos enxutos e sem zonas de conforto. Você acha que
uma hora é suficiente?
- Se eu falar a
verdade, você não me contrata!
O que temos aí não é um diálogo surreal. Eu atendo
duas ou três solicitações destas por semana. Trata-se
da aquisição de “vacinas” contra os males das
organizações. Nada mais natural, numa economia de
mercado, onde os compartimentos são estanques e as métricas
definem normas e procedimentos irredutíveis. Nossa
cultura ocidental tem uma maneira peculiar de lidar com
as coisas: precisamos de chancelas, de carimbos e rótulos.
Como tudo está engendrado numa “cadeia de
produtividade”, o pensamento indutivo supõe que cada
um tem seu lugar e serve para algo. Se não for
professor, não pode ensinar; se não for especialista,
não pode opinar. E a recíproca é verdadeira: geólogos
não consertam sapatos e maridos não lavam a louça.
Admirável mundo novo!
A lista
continua: se faltar uma peça, tem que buscar no
almoxarifado (se for Just-in-time, danou-se). Se o caso é serviços, tem que chamar alguém
do ramo. Quando o problema é na equipe ligam para o
consultor. Enfim, para tudo tem uma voz “autorizada”
a falar e que traz a solução para os problemas que
nenhum outro membro da sociedade está habilitado a
resolver. Naturalmente, este processo é até lógico, o
duro é a maneira em que estão dispostas as coisas e
forma de aquisição. Em algum lugar do passado as
pessoas se preocupavam com uma visão global e orgânica,
hoje se busca o core business. Explico: como tudo é produto, quando aparece uma
necessidade a ser resolvida, se vai “ao mercado”
buscar o pacote de salsinha, quer dizer, solução. Se o
caso é absenteísmo, presenteísmo ou um “gap” de
competências, as pessoas procuram um preparado, uma técnica,
uma mistura semipronta que resolva a questão. Basta
fazer uma cotação e comparar. Simples. Estratégico.
Aí começa o non sense. Uma gelatina está pronta, após adicionar água. Será
que uma equipe maltratada e mal orientada consegue ser
motivada pelo showman mais caro numa sexta à noite,
sabendo que na segunda vão encontrar a mesma cadeira
quebrada e o chefe carrancudo? Vamos lá, meus Campeões!
Motivem-se! O Futuro está em suas Mãos! Vocês são
Vencedores... Putz! Ninguém merece. Se há uma cura
para os males das organizações, estes procedimentos
devem primeiro, interpretar
relações. Segundo: devem mapear ferramentas,
processos e interações. Finalmente, precisam estar
alinhados com as estratégias que realmente trazem
vantagem competitiva. Entre elas a racionalidade das análises,
clima, contexto e ações produtivas. Neste meio tempo,
atender às necessidades das pessoas a partir de políticas
claras e ações sustentáveis.
A cura dos variados estados patológicos organizacionais
envolve uma técnica diagnóstica, 360º, que desmonte
os falsos indicadores e potencialize os aspectos
positivos das situações. Sempre haverá os irresponsáveis.
Mas, via de regra, ninguém motivado se atrasa com freqüência.
E, mesmo se o problema for esse, o que impede a compensação
com um banco de horas? É preciso criatividade para
viver numa cidade onde o colapso dos transportes é uma
realidade. Faltas médicas ou entrevistas de emprego
para fugir do ambiente insalubre? Para o primeiro,
composição e acordo; isto resultará em gratidão e,
com isso aumento da fidelidade à empresa. O outro é
indicador da saúde e competitividade: poucos fogem de
um lugar promissor ou onde a convivência é saudável.
Desta maneira a perfeita sintonia e integração entre
missão da empresa e missão pessoal é o que mantém os
desafios superáveis. Uma assessoria externa pouco pode
fazer se não contar com o apoio da vontade realizadora
dos profissionais que nos contratam. Resultados
sustentáveis vêm de estratégias consistentes e devem
alinhar três fatores-chave: Retorno, Inovação e
Sustentabilidade. O primeiro é o óbvio: organizações
necessitam lucrar. O segundo permite obter resultados
com melhores custos e isto quer dizer sobrevivência. O terceiro significa produzir sem
destruir; liderar sem coerção ou desrespeito e
recompensar sempre o mérito. Quem quer ouvir aquele que
clama no deserto? Somente os sábios se inclinam diante
das propostas éticas. Estes geralmente ganham mais.
A palestra é um
tônico revigorante, uma medicação para despertar a
sensibilidade, fortalecer o sentimento de auto-realização
e cooptar o engajamento dos melhores valores. Funciona
muito bem para aqueles que estão buscando destacar-se
na organização. Mas não é uma panacéia. Se o caso
é grave, é preciso tratar, além das pessoas, as
lideranças, as políticas e os valores. Todo um modelo
precisa ser analisado e suas resistências mapeadas, com
auto reflexão. Senão nada funciona e ainda nos traz
surpresas. É como a mãe que leva
o filho
ao psicólogo e reclama que ele não obedece. Na maioria
dos casos, quem precisa de tratamento é o adulto e não
a criança. Ela só responde aos estímulos de seu
ambiente. Quais estímulos da organização afetam nossa
rotina?
Veja
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